Terça-feira, 17 de Abril de 2012
CineClube, dia 20

O Cineclube de Amarante exibe, no dia 20, pelas 21.30, o filme

O Dia de Visita, na presença do seu realizador Luís Vieira Campos.

 

                                          Dia de Visita

 

Sabemos que é um Dia. Mas não é um dia qualquer, como tantos outros. É um dia que transgride a normalidade. É um dia desejado. Mais: é um dia ansiado.

A curta-metragem de Luís Vieira Campos aborda a temática da “visita íntima”. Mas o que é a visita íntima? O que a diferencia das demais visitas?

Em primeiro lugar, a liberdade. Quem é visitado sofre da sua privação. Há casos em que visitante e visitado são ambos seres enclausurados.

Em segundo lugar, o tempo cronológico. Esta visita tem uma duração de três horas e uma periodicidade mensal. Não é possível dilatá-la. A sua regulamentação é rigorosa e rígida.

Depois, surge-nos o espaço. No caso deste filme, trata-se do Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo. Sim. As visitadas – porque a prisão é feminina -, são mulheres.

 O dia de visita é um momento íntimo. É íntimo porque é profundo. É íntimo porque é privado. É íntimo porque reivindica o comprometimento e a comunhão total entre dois seres.

Este é o dia da primeira vogal, da primeira letra do alfabeto. É o dia dos Afetos.

Numa das cenas iniciais do filme surge a imagem de rails de uma autoestrada. Metáfora ao dinamismo intrínseco da vida, à incerteza do seu trajeto ou direção...  tal como a existência, na qual somos ora protagonistas, ora espectadores, se vai desenrolando e desvelando, intercalando experiências de júbilo com aquelas que desejaríamos  esquecer.

Há uma dialética latente nestas oscilações entre estados emotivos contrastantes, na qual se tece a (nossa) biografia do sentir, cúmplice do existir.

O que ressalta do filme é o paradoxo entre a clausura que a instituição prisional, com todas as portas – tal qual uma matrioska -, gradeamentos e arames ostenta; o quarto e as  paredes que o confinam (onde decorre a visita íntima), e a erupção de emoções da reclusa, mulher de Francisco (Miguel Rubim), interpretada por Sandra Salomé.

Privadas da liberdade corpórea, as reclusas tentam manter intactas as liberdades incorpóreas: a da consciência e a dos afetos. Percebe-se que o objeto fílmico, que Luís Campos elegeu, é controverso. Mas esta curta-metragem tem vários méritos: o de evitar cair no juízo precipitado ou preconceito sobre estas mulheres. Para quê, como e por quê condenar quem já foi condenado ou está na desventurada expectativa de o ser? Não é o dia do julgamento, mas o das vivências emocionais intensas.

Por outro lado, desmitifica a associação simplista entre os afectos e a sexualidade. Os afetos não se reduzem à sexualidade, ainda que possam ser sexuados.

Finalmente, o tempo psicológico.

Assiste-se ao elogio da lentidão como potenciadora da captação dos gestos e das reações expressivas das personagens. Por quê esta insistência do tempo, e com ele as imagens e o som, em avançar vagarosamente?

Talvez, porque é a única forma de erigir em pequenas imortalidades as emoções intensas, por natureza efémeras.

Talvez, porque estas emoções resistam à mensuração. Transgridam o pêndulo.

Talvez...

 

Professora Elsa Cerqueira, da Equipa da Be/ CineClube de Amarante

 


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publicado por BE Lerporquesim às 23:41
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